A primeira vez que eu lembro de ter perguntado o que era o “choro” foi no Pandemonium. Fazíamos um número em que o Silvano Monteiro (um dos componentes da orquestra de pandeiros) simulava tocar um trombone, ele solava “Odeon” com a própria boca. Por não haver um arranjo diferente pros pandeiros, eu achava essa parte do show meio chata. Os aproximadamente 14 pandeiros acompanhavam a melodia “tocada” pelo Silvano. Wilson Pombo da Paz (que Deus o tenha, Wilson!) vibrava… com certeza gastou saliva me explicando como era legal termos um choro no repertório do grupo.
Depois me lembro de um dia lá no fim dos anos 90 - quando eu passeava com o pandeiro pra lá e pra cá entre Semente e Lavradio 100 - em que eu, Pedrinho Miranda, João Callado e não consigo lembrar mais “quens”, passamos a noite na companhia do Toni 7 cordas, violonista do Época de Ouro. Eu e Pedrinho revezávamos no pandeiro e no fim da noite o Toni me elogiou dizendo que eu tocava bem e que poderia ser uma ótima pandeirista de choro por causa da minha forma de tocar. Eu agradeci mas no fundo não gostei do elogio! Eu achei que ele tava dizendo que eu não tocava bem o suficiente pra tocar samba!
Toni, você é um chato, mas tinha toda a razão. Depois de ouvir muito Abraçando Jacaré às segundas no Semente e essencialmente frequentar muitas rodas de choro no Bip Bip às terças, conheci a elegância irresistível do pandeiro na formação instrumental do choro. Um tesão. E assim a minha sorte tava com a cama feita pra deitar e rolar. Num sábado de manhã de abril de dois mil a Ignez Perdigão me ligou pra ir ao primeiro choro na feira… O Choro na Feira virou minha família, meu trabalho e a minha escola.
Até hoje eu fico emocionada vendo as crianças curtindo o som da gente na feira. Fico empolgada ao pensar que os que estão lá já vão crescendo muito bem familiarizados com a música instrumental pois nos acompanham de perto… sempre tem um dançando e outros nos olhando de boquinha aberta. Um dia vão gastar saliva explicando a quem lhes perguntar se sabem “o que é chorinho”.
Quarta-feira passada foi dia 23 de abril, Dia Nacional do Choro. Toquei à noite com o Samba de Fato no Trapiche Gamboa. Certa hora o Alfredo del Penho convidou a amiga Joana Queiroz pra dar uma canja ao clarinete. Lembrei dessas histórias ao perceber o meu coração todo arrepiado ao ouvi-la interpretar, maravilhosa, clássicos do repertório chorão: Chorinho em aldeia do Severino Araújo e Sempre do K-Ximbinho.




2 comentários
Feed de comentários deste artigo
28 28UTC abril 28UTC 2008 às 4:13 pm
Leticia
Linda historia!
8 08UTC dezembro 08UTC 2008 às 2:13 pm
Bruno
Eu se amarro nessa capa do Loredano…