Semana passada eu tava aí, na inauguração desse terreiro lá em Quissamã. É o Espaço Cultural Antônio Morim. Não vai dá pra contar a história toda dessa festa, vou resumir no que é o Fado de Quissamã e por que eu estava lá.
Quissamã é uma cidade que fica no norte do estado do Rio. Lá existe o último grupo tocador de fado, um fado de origem afro-brasileira. Por mais inusitado que isso possa parecer, eu gravei um Fado de Quissamã no meu CD. A música chamada “Boi Surubim”, de autor desconhecido (aprendida pelos que cantam hoje por tradição oral), eu conheci num CD produzido pela Funarte, gravado na década de 80.
Entrei em contato com a prefeitura de lá através de Darlene Monteiro, não por acaso amiga do Tuninho Galante. Foi ela quem me avisou da festa em que o grupo se reuniria para tocar e dançar o Fado. Era uma das poucas oportunidades de assisti-los ao vivo.
E lá fui eu. A formação intrumental do Fado são dois pandeiros e uma viola. Os dois pandeiristas cantam em vozes que se complementam (em terças, tipo dupla sertaneja). Os dançarinos são tão importantes quanto os músicos pois os homens batem com os pés no chão e batem palmas orquestradas com os tocadores. Além de encherem o salão de charme, é claro.
Seu Antônio Morim (na foto, com o microfone) era o anfitrião da festa. O lugar é praticamente o quintal de sua casa. Tornou-se um líder por seu entusiasmo e paixão pelo Fado. Morim tem uma peculiaridade intrigante para um exímio pandeirista: perdida na lida com a cana de açucar quando jovem, ele não tem a mão direita. Só percebe isso quem o vê tocar de perto pois o som que ele tira do pandeiro não diz que falta uma mão ali.
“Boi surubim” fecha o meu disco e estou muito orgulhosa disso, de com essa gravação fazer com que outros conheçam um pouco dessa riqueza brasileira. Morim, Darlene, e todo pessoal de Quissamã, muito obrigada pela noite inesquecível!
foto: Gilberto Fugimoto

11 comments
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3 03UTC outubro 03UTC 2009 às 9:09 pm
Leticia
Nossa que aula esse post! :-)
3 03UTC outubro 03UTC 2009 às 11:40 pm
Clarissa
Que bonito o post!
Fiquei curiosa para ouvir o Fado de Quissamã.
Bjs!
8 08UTC outubro 08UTC 2009 às 5:51 pm
Paula
mais e mais com vontade de ouvir seu Cd, Ti. Esse fado de quissamã chamado “boi Surubim” deve ser lindo!!
8 08UTC outubro 08UTC 2009 às 5:55 pm
Luiza Sales
Clarice! muito legal saber desses pontos de cultura!
O mais legal pra mim é que a minha família é de Quissamã, meus avós e meus tios todos moram lá! =)
8 08UTC outubro 08UTC 2009 às 6:26 pm
Clarice
Que legal, Luiza! Lá, além do fado, tem jongo e também um trabalho de preservação da culinária da época dos escravos… deve ser uma delícia!
8 08UTC outubro 08UTC 2009 às 10:12 pm
giselemaia
Clarice, obrigada por nos enriquecer com essa história. Como diria minha mãe, você não dá ponto sem nó. :)
9 09UTC outubro 09UTC 2009 às 11:14 am
Noel
Muita força para o fado e para você, Clarice!
9 09UTC outubro 09UTC 2009 às 12:11 pm
Gilberto Fugimoto
Também estive na inauguração do Salão de Fado de Quissamã.
Boteco de Antonio Morim convertido em centro cultural para preservação dessa única manifestação cultural.
Conversando com os guardiões dessa tradição eles informam que o Fado é uma dança sagrada, razão pela qual era a única permitida no período da Quaresma.
19 19UTC outubro 19UTC 2009 às 3:35 pm
Luiz
Oi, Clarice.
Na verdade, apesar de ser hoje uma marca da cultura portuguesa, a origem do fado é brasileira: trata-se, segundo o Mario de Andrade, do nosso lundu — que, chegando a Lisboa, passou a ter esse nome. Sei lá por quê. Esse fado de Quissamã é diferente?
Não conheço esse disco da Funarte, mas a Clementina já cantava um “Boi surubim” nos anos 1970 — só que, como tudo o que a negona dizia ou cantava virava um samba amacumbado, fico sem saber se são a mesma canção. Você sabe alguma coisa a esse respeito?
19 19UTC outubro 19UTC 2009 às 3:35 pm
Luiz
Quero ouvir o seu disco. Onde encontro?
19 19UTC outubro 19UTC 2009 às 8:20 pm
Clarice
O disco ta chegando!!
Sera lancado dia 7 de dezembro no Trapiche Gamboa.